January 26, 2013

Vamos a Bebadroski?






( Meu amigo Marcos Vini enviou esta contribuição. Se quiserem conhecer o jovial e instrutivo blog dele cliquem aqui: 
http://m-andms.blogspot.com.br )



Já faz alguns anos que meu primo Mauricio insiste na busca pela origem de nossa família. E depois de pelo menos 10 anos de encontros e desencontros, conseguimos nos dedicar a isso, inclusive para que pudéssemos obter nossa cidadania europeia.

Tenho que reconhecer, fui menos assíduo do que meu primo nesse processo. O Mauricio é o grande responsável em encontrar os documentos de nossas mães, procurar parentes que tinham os documentos da família, mas não queriam ser achados, fazer a pesquisa da cidade natal de nossos avós e bisavós. Foi sua verdadeira caça ao tesouro.

Mas, como toda caminhada, tivemos alguns problemas. Em um deles só o acaso poderia resolver. E foi isso que aconteceu.

Antes de tudo, preciso posicioná-lo, amigo leitor, em uma versão resumida de tudo o que aconteceu. Minha família é de ascendência húngara. Meus bisavós chegaram ao Brasil em 1927, com 3 de seus 4 filhos (uma delas nasceria aqui no Brasil).

Minha bisavó Rozália, minha tia avó Barbara e meu bisavô Sándor Kerekes


Porém um dos grandes problemas são as transcrições errôneas de nomes e cidades de origem desses nossos familiares. Ainda pra piorar toda a situação, a Hungria perdeu a primeira guerra e cedeu espaço de seu território à Sérvia, Croácia, Romênia, Tchecoslováquia e União Sovietica. Enfim, o processo é longo e bem complicado, praticamente um quebra-cabeças.

E o que quer dizer Bebadroski? Se você não sabe, não tem problema nenhum, porque nem o Google sabe. Na busca pelos documentos, minha tia liga e diz que a cidade de meu avô era Bebadroski. O comentário azedo, não meu dessa vez, inevitável:

- Só se você estiver Bebadroski!

Pior de tudo é saber que a carteira de estrangeiro do vovô tinha mesmo como cidade natal: Bebadroski! E quem acha agora a tal da cidade? Graças à ajuda de um grande amigo no consulado húngaro, o Gábor, o mistério foi desvendado. Em uma busca quase surreal, eu, o Mauricio e o Gábor passamos uma manhã inteira procurando em um livro cidades que tinha pronúncia parecida com a tal Bebadroski. Nada...

Algumas semanas depois, nosso amigo Gábor, em um almoço, nos sugere que talvez Bebadroski fosse uma abreviação. Imagine a cena, um escrivão registrando os imigrantes que acabaram de desembarcar do navio, falando húngaro. Era de se esperar que se escrevesse qualquer coisa no documento.

E não é que o deus Gábor da imigração hungaresa (Marcos, que exagero!) estava certo. Bebadroski poderia ser B. Badroski! Mais uma manhã de café e busca no livro das cidades da Hungria. Encontramos uma cidade chamada Batinjani Podborski.
B. Podborski?  Era possível.

Batinjani Podborski - 2012



Um telefonema e contratamos um despachante na Hungria, que rodou 700 Km para verificar no cartório da cidadela se lá estava o meu avô. E em um vilarejo de incríveis 8 casas, descobrimos onde a família Kerekes teve seu segundo filho. Estava desvendado nosso mistério.

Ainda não sabemos se temos parentes na Hungria nem se todas as casas existem. Mas em julho já combinamos: temos que visitar lugar tão escondido e peculiar. E aí, vamos a Bebadroski?



January 25, 2009

Os azulejos da Praça Deák

Caro leitor, eu sei que artigos em blogs devem ser curtos mas este será uma exceção, pois envolveu vários meses de pesquisa (que ainda não chegou ao fim).

"A idéia de João Vieira em reunir na estação da Praça Deák do Metropolitano de Budapeste, flashes de versos de seis poetas (três húngaros e três portugueses) é uma obra que se impõe por ela mesma.

A visualização mental deste conjunto é extremamente sedutora, excitante e a sua realização oferece, além do mais, atrativos que, de relance, não poderíamos imaginar.

Ao associar personalidades tão diversas nos seus painéis, o pintor partiu à procura do elo que, a meu ver, une, desde o início, as várias fases do seu percurso. Esta obra em azulejos tem todas as hipóteses de impressionar pelo rigor e pelo cromatismo da sua apresentação."

Assim se inicia o artigo "Um longo caminho interpretativo" de Margarida Botelho, publicado num caderno bilíngue (português e húngaro) intitulado "Painéis para a estação Deák Tér do Metropolitano de Budapeste" e publicado pelo Metropolitano de Lisboa em 1996.

Para quem quiser adquirir um exemplar por 10 euros, aqui vai o site:


Mas deixe-me contar a história desde o início e como me interessei por este assunto apaixonante.

Há quase dois anos trabalho algumas horas por dia numa empresa que fica próxima à estação Deák Tér e como vou quase todos os dias de metrô, os azulejos que eu lá via sempre me intrigaram. Sempre correndo, às vezes eu reconhecia algumas palavras em húngaro de um dos lados, outras vezes decifrava uma ou duas em português do outro... mas como estes fragmentos de texto não faziam sentido, achei que era mera coincidência. Até que um dia, movido pela curiosidade, pesquisei o assunto na internet e descobri que um jovem local chamado Géza Papp também tinha as mesmas dúvidas que eu. Trocamos emails, encontramo-nos algumas vezes e apresentamos agora o resultado das nossas pesquisas. Para quem quiser ler uma versão deste artigo em húngaro, visite o blog dele aqui:

Depois de fotografarmos ambos os lados da estação, ao lado do painel descobrimos uma plaqueta de bronze com o seguinte texto:

Obra do pintor português
JOÃO VIEIRA nascido em 1934
executada em Lisboa na
Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

oferta do
Metropolitano de Lisboa

ao
Budapesti Közlekedési
Részvénytársaságnak (assim mesmo, com "nak" no final)

Inaugurado em 19 de Agosto de 1996
por ocasião das comemorações dos
1100 anos da fundação do
Estado Húngaro.

Do lado oposto há uma outra plaqueta com este mesmo texto, porém em húngaro e sem o erro de concordância mencionado acima. O correto seria sem o sufixo -nak.

Semanas de pesquisa árdua se passaram, montamos finalmente o quebra-cabeças e descobrimos que o artista escolheu 3 poetas húngaros, 3 portugueses e 10 poemas no total, cinco em cada idioma. Aqui vão eles, caro leitor, começando com os portugueses traduzidos para o húngaro.

O primeiro poema, logo no painel da esquerda e bem menor em tamanho que os outros, é "Opiário" de Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos, que foi um de seus inúmeros heterônimos), nascido em 1888 e morto em 1935.

No painel encontramos somente os versos em negrito, os em azul já não couberam... o texto simplesmente termina, mas é compreensível, pois não seria possível ao artista compor uma obra desta envergadura levando em conta todas as letras de todos os poemas.

Podemos perceber, entretanto, que quando montaram o painel (ainda em Lisboa) cometeram alguns pequenos erros. Por exemplo, alguns azulejos trocaram de posição. Estas discrepâncias eu realço em letras vermelhas, caso um dia você, caro leitor, queira verificá-los pessoalmente. Em verde marquei os dois azulejos onde João Vieira substituiu uma letra pelo logotipo do seu atelier, que é uma concha (vide foto). Para conhecer o currículo extenso do artista, clique aqui:




OPIÁRIUM

A LELKEMET NEM ÓPIUM SEBEZTE,
AZ ÉLETTŐL SÁPADOZTAM, DARVADOZTAM,
DE VÍGASZOM RÉMLETT AZ ÓPIUMBAN,
KELET KELETJE CSÁBÍTOTT KELETRE.

MEGÖL, TUDOM, E FEDÉLZETI ÉLET
FEJEMBEN LÁZAS NAPOK KERGETŐZNEK.
EZERSZER JOBB, HA BETEGSÉG GYÖTÖR MEG.
AZ ALKALMAZKODÁSHOZ ÉN NEM ÉRTEK.

AZ ELLENTMONDÁSOS, ROSSZ CSILLAG-ÁLLÁS
ARANY SEBEKKEL UTAMAT KISZABJA.
ÖNÉRZETEM LECSÚSZIK A HABOKBA,
IDEGCSOMÓIM HULLÁMOK CIBÁLJÁK.

A KÉPZELET TORZ LENDÍTŐKERÉKKEL
A KA
TASZTRÓFÁT MŰKÖDÉSBE HOZZA,
EGY KERTBEN RÁLELEK A VÉRPADOKRA,
SZÁRUKAT VESZTETT VIRÁGOK KÍSÉRNEK.

(Tradução de Zsuzsa Takács, de acordo com o livreto editado em Lisboa. É possível, entretanto, que seja tradução de Endre Kukorelly, verificarei em breve!)

Aqui vai a versão original do poema:

FERNANDO PESSOA / ÁLVARO DE CAMPOS: OPIÁRIO
(Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro) - escrito em março de 1914

É ANTES DO ÓPIO QUE A MINH'ALMA É DOENTE.
SENTIR A VIDA CONVALESCE E ESTIOLA
E EU VOU BUSCAR AO ÓPIO QUE CONSOLA
UM ORIENTE AO ORIENTE DO ORIENTE.

ESTA VIDA DE BORDO HÁ-DE MATAR-ME.
SÃO DIAS SÓ DE FEBRE NA CABEÇA
E, POR MAIS QUE PROCURE ATÉ QUE ADOEÇA,
JÁ NÃO ENCONTRO A MOLA PRA ADAPTAR-ME.

EM PARADOXO E INCOMPETÊNCIA ASTRAL
EU VIVO A VINCOS DE OURO A MINHA VIDA,
ONDA ONDE O PUNDONOR É UMA DESCIDA
E OS PRÓPRIOS GOZOS GÂNGLIOS DO MEU MAL.

É POR UM MECANISMO DE DESASTRES,
UMA ENGRENAGEM COM VOLANTES FALSOS,
QUE PASSO ENTRE VISÕES DE CADAFALSOS
NUM JARDIM ONDE HÁ FLORES NO AR, SEM HASTES.

Na parte central do painel (que é bem maior que as duas laterais) encontramos 3 poemas, o primeiro deles de Luís Vaz de Camões (1524?-1580):



















MIT AKARTOK, ÖRÖK VÁGYAKOZÁSOK?

MIT AKARTOK, ÖRÖK VÁGYAKOZÁSOK?
MILY REMÉNYEKKEL ÁLLTOK MÉG ELŐ?
NEM TÉR VISSZA A TOVASZÁLLT IDŐ,
S HA VISSZATÉR IS, VONÁSAI MÁSOK.

JÓL TESZITEK, ÉVEK, HOGY TOVASZÁLLTOK,
MERT
BÁR MINDŐTÖK KÖNNYEN RÖPPENŐ,
HAJLAMOTOK NEM MINDIG EGYEZŐ,
S AZ ÓHAJ NEM ISMER EGYFORMASÁGOT.

MI KEDVES VOLT, MÁS BENNE MÁR A LÉNYEG;
MER
T A NAPOK MÚLÁSA LETÖRÖLTE
A RÁTAPADT ELSŐ GYÖNYÖRŰSÉGET.


REMÉNYT NEKEM TOVÁBBI ÖRÖMÖKRE
NEM HAGY A MEGLÓDULT IDŐ S A VÉGZET,
A BOLDOGSÁG E KÉT KERÉKKÖTŐJE.


(Tradução de Ernő Hárs, embora o livreto editado pelo Metropolitano de Lisboa mencione Árpád Mohácsi – informação a verificar)

Aqui vai o soneto original:


LUÍS DE CAMÕES: QUE ME QUEREIS, PERPÉTUAS SAUDADES?

QUE ME QUEREIS, PERPÉTUAS SAUDADES?
COM QUE ESPERANÇA AINDA ME ENGANAIS?
QUE O TEMPO QUE SE VAI NÃO TORNA MAIS
E, SE TORNA, NÃO TORNAM AS IDADES.

RAZÃO É JÁ, Ó ANOS, QUE VOS VADES,
PORQUE ESTES TÃO LIGEIROS QUE PASSAIS,
NEM TODOS PARA UM GOSTO SÃO IGUAIS,
NEM SEMPRE SÃO CONFORMES AS VONTADES.

AQUILO A QUE JÁ QUIS É TÃO MUDADO
QUE QUASE É OUTRA COUSA; PORQUE OS DIAS
TÊM O PRIMEIRO GOSTO JÁ DANADO.

ESPERANÇAS DE NOVAS ALEGRIAS
NÃO MAS DEIXA A FORTUNA E O TEMPO ERRADO,
QUE DO CONTENTAMENTO SÃO ESPIAS.

O segundo poema do painel central já é de Cesário Verde, outro grande poeta português, que nasceu em Lisboa em 1855 e faleceu em Lumiar em 1886, aos 31 anos de idade.

Ainda não consegui descobrir por que os azulejos com as letras maiores (que destacam os nomes dos seis poetas) mencionam o nome como Cesáro (sem o i). Minha hipótese é que quando escolheram os seis protagonistas contaram as letras dos seus sobrenomes: Camões, Pessoa, József e Petőfi tem seis letras e Ady tem três (que dobrando dá seis, isto é, repetindo as letras daria para fazer combinações de azulejos similares aos dos outros). Cesário entretanto tem sete letras… hmmm… o que fazer? Suponho que o artista primeiro procurou outros poetas portugueses com seis letras e como não encontrou nenhum famoso… pensou que nós húngaros não perceberíamos este deslize e ’comeu’ o i, ficando Cesáro.

BEZÁRT ÉJ

EMLÉKSZEL-E, MONDD, AZ ELMÚLT SZOMBATRA:
LÉPÉSEINK LASSÚ KOPPANÁSAI,
FÖLÖTTÜNK A MERENGŐ GÁZ SÁRGA LÁNGJA,
S A HOLDFÉNY TEJFINOM SIMOGATÁSAI?

A SZŰK UTCÁCSKÁKRA JÓL EMLÉKSZEM ÉN,
HOL KÉZ A KÉZBEN KÓBOROLTUNK KETTEN:
A H
ÁZAK HOMLOKÁN OTT SÁPADT A FÉNY;
S ABLAKUKBAN SZOMSZÉDASSZONYOK FECSEGNEK.

NEM FELEJTEM MINDAZT MIRŐL MESÉLTÉL
EGY DÚSAN FARAGOTT KOMOR TEMPLOMNÁL;
SEM A CÉDRUST, MELY HÁJBÓL S HALÁLBÓL ÉL,
S BÁJOS TEMETŐKERTEK REJTEKÉN ÁLL.

ELINDULTUNK, TUDVA AZ ALKONY KÖZEL,
MÉGIS MEG-MEGÁLLVA HALADTUNK TOVÁBB; –
DE KEDVETLENSÉGEM SEM FELEJTEM EL,
S A SZAGGATOTT JELET: MINT MÚLTAK AZ ÓRÁK.

(Tradução: Éva Bernát)

CESÁRIO VERDE: NOITE FECHADA

LEMBRAS-TE TU DO SÁBADO PASSADO,
DO PASSEIO QUE DEMOS, DEVAGAR,
ENTRE UM SAUDOSO GÁS AMARELADO
E AS CARÍCIAS LEITOSAS DO LUAR?

BEM ME LEMBRO DAS ALTAS RUAZINHAS,
QUE AMBOS NÓS PERCORREMOS DE MÃOS DADAS:
ÀS JANELAS PALRAVAM AS VIZINHAS;
TINHAM LÍVIDAS LUZES AS FACHADAS.

NÃO ME ESQUEÇO DAS COUSAS QUE DISSESTE,
ANTE UM PESADO TEMPLO COM RECORTES;
E OS CEMITÉRIOS RICOS, E O CIPRESTE
QUE VIVE DE GORDURAS E DE MORTES!

NÓS SAÍRAMOS PRÓXIMO AO SOL-POSTO,
MAS SEGUÍAMOS CHEIOS DE DEMORAS;
NÃO ME ESQUECEU AINDA O MEU DESGOSTO
NEM O SINO RACHADO QUE DEU HORAS.

O terceiro poema da parte central é novamente de Fernando Pessoa:

Ő, AZ AZ ARATÓMUNKÁSNŐ ÉNEKEL

Ő, AZ AZ ARATÓMUNKÁSNŐ ÉNEKEL
SZEGÉNY, TALÁN BOLDOG IS, AZT HISZI;
ARAT, S AZ ÉNEK SZÁLL AZ ÉGBE FEL,
DERŰS ÉS NÉVTELEN ÖZVEGYSÉGGEL TELI.

ÉS HULLÁMZIK, MINT EGY MADÁR DALA
AZ ÉGEN, AMELY TISZTA, MINT A KEZDET,
S HAJLIK, AHOGY HAJLIK AZ ÉG FALA,
ÉS LÁGY FOLYAM, ÉS MEG SOHASE RESZKET.

ÖRÖM HALLGATNI ŐT, S ELSZOMORÍT,
E HANGBAN ÉLNEK A MEZŐK S A RÉTEK
S A MUNKA IS, E DAL ÚGY ELBORÍT,
ÉS MI
NTHA MÁS OKA IS LENNE, MINT AZ ÉLET.

Ó ÉNEKELJ, DALOLJ, HA NINCS IS OK!
AZ, AMIT ÉRZEK IS, CSAK GONDOLAT.
A SZÍVEMBEN, AHOL MOST NEM VAGYOK,
ÖNTSD SZÉT GYENGE, HULLÁMZÓ HANGODAT.

Ó HOGYHA ÚGY LEHETNÉK ÉN, HOGY TE LEGYEK!
BOLDOG TUDATLANSÁGBAN LENNI MÁS,
ÉS TUDNI ERRŐL, TUDNI. Ó EGEK!
Ó, MEZŐK! Ó, DAL! Ó, EZ A TUDÁS!

NEHÉZ, S AZ ÉLET CSAK EGY PILLANAT!
VÁLTOZTASSATOK, ÁRADVÁN BELÉM
LELKEMMÉ KÖNNYŰ ÁRNYÉKOTOKAT!
ÉS VIGYETEK, TOVÁBB, EL, MINDENT, AMI ÉN.


(Tradução de Endre Kukorelly)

Aqui vai o poema original para quem quiser conferir:

FERNANDO PESSOA: ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA,
JULGANDO-SE FELIZ TALVEZ;
CANTA, E CEIFA, E A SUA VOZ, CHEIA
DE ALEGRE E ANÔNIMA VIUVEZ,

ONDULA COMO UM CANTO DE AVENO
AR LIMPO COMO UM LIMIAR,
E HÁ CURVAS NO ENREDO SUAVE
DO SOM QUE ELA TEM A CANTAR.

OUVI-LA ALEGRA E ENTRISTECE,
NA SUA VOZ HÁ O CAMPO E A LIDA,
E CANTA COMO SE TIVESSE
MAIS RAZÕES P'RA CANTAR QUE A VIDA.

AH, CANTA, CANTA SEM RAZÃO!
O QUE EM MIM SENTE 'STÁ PENSANDO.
DERRAMA NO MEU CORAÇÃO
A TUA INCERTA VOZ ONDEANDO!

AH, PODER SER TU, SENDO EU!
TER A TUA ALEGRE INCONSCIÊNCIA,
E A CONSCIÊNCIA DISSO! Ó CÉU!
Ó CAMPO! Ó CANÇÃO! A CIÊNCIA

PESA TANTO E A VIDA É TÃO BREVE!
ENTRAI POR MIM DENTRO! TORNAI
MINHA ALMA A VOSSA SOMBRA LEVE!
DEPOIS, LEVANDO-ME, PASSAI!

No último painel deste lado "português", bem menor em tamanho, encontramo-nos novamente com Luís de Camões. Este é o quinto e último poema:


HIBÁIM, BALSORS, LOBOGÓ SZERELMEM

HIBÁIM, BALSORS, LOGOBÓ SZERELMEM
ESKÜDTEK AZ ELVESZTÉSEMRE ÖSSZE;
FELESLEGESEN TETT SORS, HIBA TÖNKRE,
MERT ELÉG VOLT ÁMORT MAGÁT VISELNEM.

RÉG MESSZ
E MÁR; DE ITT A KÍNJA BENNEM
MINDENNEK MÉG, MI MÚLTAMAT GYÖTÖRTE,
S VAD KESERVEK MEGGYŐZTEK FELŐLE,
HOGY NEM ÉLHETEK SOHA ÖNFELEDTEN.

ÉVEIM SORÁN MINDIG CSAK HIBÁZTAM;
S HOGY ROSSZ REMÉNYEIMET PORBA SÚJTSA,
BŐSÉGES OKOT ADTAM RÁ A SORSNAK.

RÖVID MARADT MINDEN SZERELMI LÁZAM...
Ó, ELÉGTÉTELT SZEREZNI KI TUDNA
BOSSZÚRA VÁGYÓ ZORD GÉNIUSZOMNAK!


(Tradução de Ernő Hárs, embora o livreto editado pelo Metropolitano de Lisboa diga que foi Árpád Mohácsi – informação a verificar)

E o original, para que o leitor possa desfrutá-lo:

LUÍS DE CAMÕES: ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE
EM MINHA PERDIÇÃO SE CONJURARAM;
OS ERROS E A FORTUNA SOBEJARAM,
QUE PARA MIM BASTAVA O AMOR SOMENTE.

TUDO PASSEI; MAS TENHO TÃO PRESENTE
A GRANDE DOR DAS COUSAS QUE PASSARAM,
QUE AS MAGOADAS IRAS ME ENSINARAM
A NÃO QUERER JÁ NUNCA SER CONTENTE.

ERREI TODO O DISCURSO DE MEUS ANOS;
DEI CAUSA A QUE A FORTUNA CASTIGASSE
AS MINHAS MAL FUNDADAS ESPERANÇAS.

DE AMOR NÃO VI SENÃO BREVES ENGANOS.
OH! QUEM TANTO PUDESSE, QUE FARTASSE
ESTE MEU DURO GÉNIO DE VINGANÇAS!

Aqui vai um filminho mostrando a tabela Excel que o meu amigo Géza Papp preparou para ajudar-nos a desvendar o mistério:


http://www.youtube.com/watch?v=7q3A1w1knrk


Do lado oposto da estação encontraremos 3 poetas e 5 poemas húngaros traduzidos para o português. Por sorte deste lado só cometeram um único erro quando colocaram os azulejos, uma simples troca de letras (veja em vermelho).

Curiosamente um dos poemas de Sándor Petőfi (Liberdade, Amor) é o único que foi usado na íntegra.

Primeiramente, o original:

SZABADSÁG, SZERELEM

SZABADSÁG, SZERELEM!
E KETTŐ KELL NEKEM.
SZERELMEMÉRT FÖLÁLDOZOM
AZ ÉLETET,
SZABADSÁGÉRT FÖLÁLDOZOM
SZERELMEMET.


















E agora em português:


SÁNDOR PETŐFI: LIBERDADE, AMOR

AMOR E LIBERDADE!
AMBOS ME SÃO PRECISOS.
PELO MEU AMOR SACRIFICO
A VIDA.
PELA LIBERDADE SACRIFICO
O MEU AMOR.

Tradução: Yvette K. Centeno

Logo em seguida, dentro deste mesmo painel (o menor dos três) vem um segundo poema de Petőfi, mas só dois versos dele...

A NÉP NEVÉBEN

MÉG KÉR A NÉP, MOST ADJATOK NEKI!
VAGY NEM TUDJÁTOK, MILY SZÖRNYŰ A NÉP,
HA FÖLKEL ÉS NEM KÉR, DE VESZ, RAGAD?
NEM HALLOTTÁTOK DÓZSA GYÖRGY HIRÉT?
IZZÓ VASTRÓNON ŐT ELÉGETTÉTEK,
DE SZELLEMÉT A TŰZ NEM ÉGETÉ MEG,
MERT AZ MAGA TŰZ; ÚGY VIGYÁZZATOK:
ISMÉT PUSZTÍTHAT E LÁNG RAJTATOK!

E em português:

SÁNDOR PETŐFI: EM NOME DO POVO

O POVO AINDA PEDE, DAI LHE AGORA!
NÃO SABEIS COMO É TERRIVEL QUAND
O SE REVOLTA.
QUANDO EM VEZ DE PEDIR AGARRA E ARREBATA?
NAO OUVISTEIS FALAR O GYÖRGY DÓZSA?
FOI SENTADO POR VÓS NUM TRONO DE FERRO EM BRASA,
MAS NÃO QUEIMOU O SEU ESPÍRITO ESSE FOGO
POIS ERA O PRÓPRIO FOGO. CUIDADO,
AQUELAS LÍNGUAS PODEM DEVORAR-VOS!

(Tradução: Yvette K. Centeno)

Na parte central do painel (a que está sobre os bancos) novamente encontraremo-nos com três poemas.

O primeiro é „No Danúbio” do poeta Attila József porém o início da obra só encontraremos no último painel deste lado da estação, e só a continuação é que aparece nesta parte central. Vamos deixá-la para daqui a pouco e pular para o segundo poema, de Endre Ady. Aqui veremos o nome dele em letras bem maiores, mas em dobro (ADY / YDA):










ELILLANT ÉVEK SZŐLŐHEGYÉN

TORT ÜLÖK AZ ELILLANT ÉVEK
SZŐLŐHEGYÉN S VIDÁMAN BUGGYAN
TORKOMON A SZÜRETI ÉNEK.

ÓNOS, CSAPÓ ESŐBEN ÁZOM
S VÖRÖS-KÉK SZŐLŐLEVELEKKEL
HAJLÓ FEJEM MEGKORONÁZOM.

NÉZEM A TÉPETT VENYIGÉKET,
HAJTOGATOM RÉSZEG KORSÓMAT
S LASSAN, GŐGGEL MAGASRA LÉPEK.

A CSÚCSON MAJD TALÁN MEGÁLLOK.
FÖLDHÖZ VÁGOM A BOROS-KORSÓT
S VIDÁM JÓÉJSZAKÁT KIVÁNOK.

E em português:

ENDRE ADY: NA VINHA DOS ANOS FANADOS

FESTEJO NA VINHA DOS ANOS
FANADOS E, EM MINHA GARGANTA,
BROTA O CANTO VINDIMO, UFANO.

A CHUVA DE ESTANHO ME ADENSA;
COM PÂMPANOS VERMELHOS-AZUIS
CINJO MINHA CABEÇA PENSA.

CONTEMPLO TRAPOS, DE SARMENTO,
ENVERGO MINHA JARRA TONTA
E SIGO ACIMA, ALTIVO E LENTO.


TALVEZ PARE NO CIMO, LANÇO
AO CHÃO MINHA JARRA DE VINHO,
DESEJO A TODOS BOM DESCANSO.

(Tradução de Nelson Ascher (informação confirmada pelo próprio tradutor, que por coincidência é meu amigo pessoal) e não de Egito Gonçalves, como mencionado no livreto publicado em Lisboa)

O terceiro poema neste painel mais longo é novamente um de Sándor Petőfi, intitulado „O Sonho”.

AZ ÁLOM...

AZ ÁLOM
A TERMÉSZETNEK LEGSZEBB ADOMÁNYA.
MEGNYÍLIK EKKOR VÁGYINK TARTOMÁNYA,
MIT NEM LELÜNK MEG ÉBREN A VILÁGON.
ÁLMÁBAN A SZEGÉNY
NEM FÁZIK ÉS NEM ÉHEZIK,
BÍBOR RUHÁBA ÖLTÖZIK,
S JÁR SZÉP SZOBÁK LÁGY SZŐNYEGÉN.
ÁLMÁBAN A KIRÁLY
NEM BÜNTET, NEM KEGYELMEZ, NEM BIRÁL...
NYUGALMAT ÉLVEZ.
ÁLMÁBAN AZ IFJÚ ELMEGY KEDVESÉHEZ,
KIÉRT EPESZTI TILTOTT SZERELEM,
S OTT OLVAD ÉGŐ KEBELÉN. –
ÁLMAMBAN ÉN
RABNEMZETEK BILINCSÉT TÖRDELEM!

E em português:

SÁNDOR PETŐFI: O SONHO

O SONHO
É O DOM MAIS BELO DA NATUREZA.
ABRE O PAÍS DOS DESEJOS
PARA ENCONTRARMOS NELE
TUDO O QUE FALTA À NOSSA VIDA.
EM SONHOS
O POBRE NÃO PASSA FOME NEM FRIO.
ANDA VESTIDO DE PÚRPURA
SOBRE A MOLE ALCATIFA DE BELAS SALAS.
EM SONHOS
O REI NÃO JULGA, NÃO CASTIGA, NÃO CONCEDE PERDÃO...
SABOREIA A CALMA.
EM SONHOS O ADOLESCENTE ENCONTRA A SUA AMADA
POR QUEM SOFRE DE UM AMOR PROIBIDO
QUE LHE ARDE NO PEITO E O CONSOME.
EU, NOS MEUS SONHOS,
ROMPO AS CADEIAS DOS POVOS ESCRAVIZADOS!

(Tradução: Yvette K. Centeno)

Muito bem, e agora veremos „No Danúbio”, que se inicia no último painel e termina no começo da parte central.


JÓZSEF ATTILA: A DUNÁNÁL

A RAKODÓPART ALSÓ KÖVÉN ÜLTEM,
NÉZTEM, HOGY ÚSZIK EL A DINNYEHÉJ.
ALIG HALLOTTAM, SORSOMBA MERÜLTEN,
HOGY FECSEG A FELSZÍN, HALLGAT A MÉLY.

MINTHA SZÍVEMBŐL FOLYT VOLNA TOVA,
ZAVAROS, BÖLCS, ÉS NAGY VOLT A DUNA.
MINT AZ IZMOK, HA DOLGOZIK AZ EMBER,
RESZEL, KALAPÁL, VÁLYOGOT VET, ÁS,

ÚGY PATTANT, ÚGY FESZÜLT, ÚGY ERNYEDETT EL
MINDEN HULLÁM ÉS MINDEN MOZDULÁS.
S MINT ÉDESANYÁM, RINGATOTT, MESÉLT
S MOSTA A VÁROS MINDEN SZENNYESÉT.

ÉS ELKEZDETT AZ ESŐ CSEPERÉSZNI,
DE MINTHA MINDEGY VOLNA, EL IS ÁLLT.
ÉS MÉGIS, MINT AKI BARLANGBÓL NÉZI
A HOSSZÚ ESŐT – NÉZTEM A HATÁRT:

EGYKEDVŰ, ÖRÖK ESŐ MÓDRA HULLT,
SZÍNTELENÜL, MI TARKA VOLT, A MÚLT.
A DUNA CSAK FOLYT. ÉS MINT A TERMÉKENY,
MÁSRA GONDOLÓ ANYÁNAK ÖLÉN

A KISGYERMEK, ÚGY JÁTSZADOZTAK SZÉPEN
ÉS NEVETGÉLTEK A HABOK FELÉM.
AZ IDŐ ÁRJÁN ÚGY REMEGTEK ŐK,
MINT SÍRKÖVES, DÜLÖNGŐ TEMETŐK.















ATTILA JÓZSEF: NO DANÚBIO

SENTADO NA MAIS ALTA PEDRA DO MOLHE
VIA FLUTUAR AS CASCAS DE MELANCIA.
PENSANDO NO DESTINO, MAL NOTAVA
COMO AS ONDAS SUSSURRAM E O FUNDO SILENCIA.

COMO SE DE MIM SAÍSSE
SÁBIO ERA O DANÚBIO, CONFUSO E GRANDE.
A ONDA, COMO OS MÚSCULOS HUMANOS
QUE LIMA, CAVA, CIMENTA OU MARTELA,

MOVIA-SE, SALTAVA, AMORTECIA,
RODOPIAVA LIVREMENTE. EMBALAVA-ME
COMO MINHA MÃE, CONTANDO HISTÓRIAS
E LAVANDO TODA A ROUPA DA CIDADE.

A CHUVA COMEÇOU A CAIR, DEPOIS CESSOU
DE UM MOMENTO PARA OUTRO, INDIFERENTE.
E EU, COMO QUEM OLHA DE UMA GRUTA,
A CHUVA INFINDÁVEL, OLHAVA O HORIZONTE

CAINDO SEM TRÉGUAS, INSENSÍVEL,
ESCURECIA O PASSADO, ANTES MULTICOR.
O DANÚBIO CORRIA. COMO UMA CRIANÇA
NO SEIO FECUNDO DE MÃE DISTRAÍDA

AS ONDAS BRINCAVAM
ALEGRES,
E PARECIAM ÀS VEZES RIR PARA MIM,
NO DECURSO DO TEMPO, TRÊMULAS
COMO O RUIR DE PEDRAS TUMULARES.
(Tradução: Ernesto José Rodrigues)

Preciso concordar com A. Santos Machado, Presidente do Metropolitano de Lisboa (em 1996) quando escreveu o seguinte: "Numa troca de culturas, de poetas, de línguas e de alfabetos, a arte de Joao Vieira estabelece novas pontes, no tempo e no espaço, entre duas cidades e entre dois países. De Lisboa para Budapeste – na estaçao Deák Tér – uma pauta musical de arte e de poesia, ficará sempre, patente."

March 28, 2006

As eleições vem aí!


O combate à corrupção está em cada um de nós. Eu sei que não existem meios, intimidações ou castigos que possam erradicar a corrupção: ela já está muito enraizada. A desonrosa prática de receber propinas tornou-se necessidade - indispensável até a homens que não nasceram para ser desonestos. Bem sei que já é quase impossível a muitos remar contra a corrente geral... Mas deixemos agora de lado o problema de quem é o mais culpado. O problema que se nos defronta agora é que chegou a hora de salvarmos a nossa pátria. Que a nossa pátria está perecendo, não pela invasão de vinte tribos estrangeiras, mas por nossas próprias mãos. Que já se formou, ao lado do governo legítimo, um outro governo, muito mais forte que o governo legal. Estabeleceram condições próprias, tudo tem preço marcado, e os preços já foram até levados ao conhecimento público. E estadista algum, embora seja o mais sábio de todos os legisladores e governantes, tem forças suficientes para remediar o mal sozinho, por mais que tente limitar a ação nefasta dos maus funcionários, nomeando para vigiá-los outros funcionários. Tudo será inútil enquanto cada um de nós não sentir que assim como na época da revolta dos povos ele se armou contra os inimigos, assim ele deve armar-se e levantar-se contra a corrupção e a falsidade.

Que tal o texto acima? Escrito para descrever a nossa situação atual, não é mesmo?

O texto descreve a situação da Rússia e foi extraído do romance Almas Mortas de Gogol, escrito há mais de 160 anos !!!

February 28, 2006

Homenagem à Trois


No soneto Duas Almas, uma curiosidade: o Alex Nascimento faz uma homenagem a Augusto dos Anjos quando fala em Tesoura e Tamarindo. Seguem abaixo os versos respectivos.

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

BUDISMO MODERNO

Tome, Dr., esta tesoura e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contrato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

February 19, 2006

Reforma ortográfica


Nao sei de quem é o texto abaixo, mas eu adorei. Se alguém souber a fonte por favor me avise.





(Um dia depois: Anna Barbara Menezes acaba de nos escrever dizendo que o texto é de autoria de Cyntia Feitosa)





Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe.

Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas seraum poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foram um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordam ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos kraze aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os kariokas talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempre çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us eskrito i ate us politiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

February 18, 2006

Retornando...


Após um longo e tenebroso inverno estou de volta.

Recebi uma bela contribuição, um soneto escrito por Alex Nascimento especialmente para o artigo do Goethe:



Duas Almas

Duas almas escondo em meu feitio
Que cumprem o viver gato e cachorro
Uma me mata e pela outra morro,
Somente a ela devo fogo e frio.

Me ofertam pesadelo e arrepio,
Mais desejo parar, eis que mais corro
Clamando a Deus e ao Diabo por socorro,
Se um é surdo, o outro é fugidio.

Ergo a taça de dúvidas e brindo
À decisão que eles possam ter,
Sou carne, não tesoura e tamarindo,

Tenho menos que pouco pra dizer:
Que uma do saber siga sorrindo
E a outra não chore do prazer.


O quadro que ilustra o artigo (Homem com duas almas, 1996) é da artista alemã Veronika Lorenz.

December 23, 2005

Feliz Natal a todos



Caros amigos!

É um prazer receber tantos comentários e emails, eu nem imaginava que fosse tão gostoso ter um blog.

Hoje vim só para desejar Boas Festas a todos e apresentar meus 4 filhotes maravilhosos: Mikolt (quase 21), Zsolt (quase 17), Dóra (11) e Péter (10 na semana que vem). Ano que vem eu apareço por aqui de novo!




December 14, 2005

Eva e Adão


(texto enviado pela minha grande amiga Cláudia Grigolon)

O que teria acontecido se o homem só tivesse sido criado a fim de que um único tipo de amor existisse, o materno?

Talvez assim Deus não teria permitido que a humanidade caísse em tentação... Ou seja, Eva bem que poderia ter nascido antes de Adão a fim de ser sua mãe e não sua amante. Que loucura! Já pensou? Ao invés de comerem maçã juntos debaixo da sombra de uma frondosa árvore, correriam pelo Paraíso em busca de uma serpente que fizesse números de contorcionismo para fazer o menino rir até cair em sono tranqüilo...

Talvez se Eva não tivesse tido a oportunidade de saber que dali a alguns milênios tudo voltaria aos princípios... Aos princípios, sim. Explico-me. Se Eva não tivesse sido fecundada por Adão, mas pelos ancestrais do anjo Gabriel, talvez hoje nem se ouvisse falar em engenharia genética...

Essa teoria virtual da expansão da raça humana poderia levar os mais céticos a questionar como seria possível termos chegado aqui, hoje, sãos, salvos e sob a mais absoluta semelhança divina, sem que tivesse havido a ciranda biológica que nos desencadeou. É muito simples. Se Lúcifer pôde ser um anjo caído e, partindo do princípio que Eva tenha sido criada antes que Adão, que chega ao Paraíso como seu filho, meia resposta já está dada.

A segunda metade baseia-se na hipótese de que Eva poderia ter tido a prerrogativa de ter escolhido para pai de Abel e Caim alguém que já tivesse tido a experiência de ter sido anjo um dia...

Nem mesmo Malthus acharia tenebrosa essa teoria.

Se a humanidade, descendente divina de forma direta, fosse além disso, descendente direta de Eva e de um ta-ta-ta-ta-ta-ta-...-ravô anjo, talvez o nome Adão nem existisse nos dicionários de nomes...

A utopia ainda é a maior perfeição já alcançada. O erro, a maior virtude, inclusive a divina, e o amor... O amor, dessa forma, o maior erro.

Por isso, rezo todas as noites e digo:
- Senhor, agradeço-vos por poder acertar e errar, amar e odiar numa mesma oração. Já que não sou Eva, nem Malthus, nem Aldous Huxley...

Veríssimo


Meu irmão János ontem mesmo me disse que eu deveria ter explicado a última frase do artigo sobre os gansos, pois a piada não ficou clara. Será que alguém realmente acreditou que os avicultores húngaros enfiam as pobres aves n’água até morrerem?
...Um Gottes Willen!

Às vezes me pergunto se existe alguma técnica para quem deseja escrever com ironia? Vejam o que Luis Fernando Veríssimo respondeu: „É curioso. Os brasileiros estão acostumados com a ironia, nada mais comum do que duas pessoas que se amam se agredirem ironicamente, ou as pessoas dizerem o contrário do que realmente pensam, mas coloque-se isso num texto e o comum é as pessoas não entenderem. Esta é a maior ironia de todas. Se há uma técnica para escrever com ironia? Não, é só ser irônico, brasileiramente.”

A entrevista toda pode ser vista aqui:

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=10953

Alguém tem alguma sugestão do que seja "ser irônico, brasileiramente"?

O que você daria? (Parte 2)

Recebi inúmeros emails e comentários dando sugestões de quais seriam as versões modernas do ouro, incenso e mirra caso os três reis magos estivessem vivos e tivessem que presentear o Menino Jesus na semana que vem.

Lenise Resende nos relata que „imagens dos reis magos só apareceram em presépios por volta de 1484” e que „o ouro representava o poder material, o incenso a nobreza e a amarga mirra significava o sacrifício que Jesus enfrentaria”.

Achei um pouco forçado, acho que é bem mais simples e pragmático: O ouro, obviamente, significava a riqueza. A mirra, que é uma resina aromática originária da Babilônia usada como perfume (e que se usa queimar nas igrejas em ocasião de festa ainda hoje) representava, na minha opinião, a vida espiritual. E o terceiro presente, que na realidade era um incenso chamado olíbano representava a saúde, pois é uma goma resina para aplicações tópicas em ferimentos.

Concluo portanto, que hoje em dia os presentes atualizados seriam um cartão de crédito „ouro”, uma consulta paga num psiquiatra e um plano de saúde mirrado.

December 09, 2005

Quando o ganso paga o pato

Desde o dia 11 de novembro até o Natal, ganso assado com batatas e repolho roxo é um prato festivo que não pode faltar nas mesas húngaras.

Diz a tradição, que quem não come ganso neste dia sentirá fome o ano todo = Aki Márton-napon libát nem eszik, egész éven át éhezik. Nos vilarejos os camponeses, examinando os ossos da ave, prevêem se o inverno terá bastante neve (ossos longos e bem clarinhos) ou só chuva e lama (ossos escuros e curtos).

Neste dia comemora-se o Dia de São Martinho (Szent Márton) e lendas envolvendo a vida deste santo deram origem a tradições que permanecem vivas até hoje em inúmeros países da Europa.

Nascido em 316 na Panônia, a Hungria de então, Martinho foi filho de um tribuno romano. Por ordem do pai, aos 15 anos entrou para a legião romana e, aos dezoito, já era soldado em Amiens, na França. No rigoroso inverno de 334, um mendigo cruzou o caminho de Martinho. O jovem soldado, que estava a cavalo, usando de sua espada cortou seu manto em dois, dando a metade ao pobre para que não sentisse frio. À noite, Cristo teria aparecido a Martinho em sonho, trajando a metade do manto ofertado algumas horas antes. O futuro padroeiro dos apreciadores de vinho (sabiam disso?) foi batizado logo após seu sonho, deixou o exército e tornou-se missionário, depois sacerdote.

Mas o que tem ele a ver com os gansos?

O clero francês afirmava que ele era o mais indicado para ser o bispo de Tours, mas Martinho, muito modesto, em princípio disse não. Levado a Tours com um subterfúgio pelos colegas, Martinho percebeu que queriam sagrá-lo bispo contra a sua vontade, escapou e foi se enconder num estábulo junto aos gansos. Estes não calaram o bico e fizeram tal escândalo, que acabaram delatando a sua presença. Aí não teve jeito, Martinho entendeu isso como um sinal divino e recebeu a mitra em 371. Faleceu no dia 8 de novembro de 397 e foi enterrado na catedral de Tours três dias depois. É venerado em diversos países como a personificação da modéstia e da virtude cristã de amor ao próximo. Curiosamente, é também padroeiro dos bêbados.

Para quem ainda não sabe, a Hungria é grande exportadora de aves. Personagem coadjuvante de vários contos húngaros (o mais famoso deles sendo Lúdas Matyi = Matias, o pequeno pastor), o ganso húngaro tem a carne mais macia que a dos austríacos ou eslovacos por causa da técnica de abate, única neste país. Enquanto nos países vizinhos matam o ganso de forma tradicional, os avicultores húngaros, talvez para evitar a gripe aviária, preferem afogá-lo.

December 07, 2005

Luz azul


Como todos sabem, ou deveriam saber, um palíndromo é uma palavra que tenha a propriedade de poder ser lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita. Exemplos: anilina, radar, mirim.

Uma frase também pode ser um palíndromo, mas só se mantiver o sentido. Estas são também chamadas de anacíclicas, do grego anakuklein, significando „que volta em sentido inverso, que refaz inversamente o ciclo”. Na opinião de Millôr Fernandes a palindromia é uma “arte neurótica e maravilhosa, capaz de envergonhar qualquer concretismo”.

Vejamos alguns exemplos: Roma é amor. O teu drama é amar dueto. Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces. A cara rajada da jararaca. Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na Moda da Romana: anil é cor azul.

Rômulo Marinho afirma que os maiores palíndromos do idioma português são de sua autoria. Só conheço uma destas frases, de 83 letras:
„O Gal. Leno Roca, à porta da cidade, a portador relata fatal erro da tropa e dá dica da tropa a Coronel Lago”, mas Marinho diz que já compôs uma de 478 letras e 173 palavras (infelizmente, ainda não tive o prazer de conhecê-la).

Em francês: Esope reste ici et se repose.
Em latim: Roma tibi subito motibus ibit amor.
Em húngaro: Géza, kék az ég.
Em inglês existem centenas, mas a que eu mais gosto é a que foi feita em homenagem a Theodore Roosevelt pela construção do Canal do Panamá:
A MAN, A PLAN, A CANAL: PANAMA.

Mas, adivinhem de quem é o recorde? Acertaram! De um enxadrista húngaro chamado Gyula Breyer (1893-1921), que compôs a seguinte carta de amor no início do século passado:

Nádasi K. Ottó Kis-Adán, májusi szerdán e levelem írám.
A mottó: Szívedig íme visz írás, kellemest író!
Színlelő szív rám kacsintál! De messzi visz szemed… Az álmok (ó csaló szirének ezek, ó csodaadók) elé les.
Írok íme messze távol. Barnám! Lám e szívindulat Öné. S ím e szív, e vér ezeket ereszti ki:
Szívem! Íme leveled előttem, eszemet letevő! Kicsike! Szava remegne ott? – Öleli karom át, Édesem! Lereszket évaszív rám. Szívem imád s áldozni kér réveden – régi gyerekistenem. Les ím. Előtte visz szíved is. Ég. Érte reszketek, szeret rég és ide visz. Szívet – tőlem is elmenet – siker egy ígérne, de vérré kínzod (lásd ám: íme visz már, visz a vétek!) szerelmesedét.
Ámor (aki lelőtt ó engem, e ravasz, e kicsi!) Követeltem eszemet tőled! E levelem íme viszi…
Kit szeretek ezer éve, viszem is én őt, aludni viszem. Álmán rablóvá tesz szeme. Mikor is e lélekodaadó csók ezeken éri, szól: A csókom láza de messzi visz!… Szemed látni csak már!… Visz ölelni!… Szoríts!…
Emellek Sári szívemig. Ide visz
Ottó
Ma már ím e levelen ádresz is új ám: Nádasi K. Ottó Kis-Adán.

Não vou traduzir o longo texto para o português, mas acreditem: é genial!

December 06, 2005

Feliz Mikulás a todos!

Alguns de vocês me perguntaram sobre „a lista do Papai Noel”. Aqui na Hungria as crianças escrevem a lista de presentes que querem ganhar para o Jézuska (Menino Jesus) e não para o Mikulás. Os envelopes são entregues para os pais (sem data certa), que os colocam no correio.

Só os meus filhos é que – sabe Deus por que – aproveitam a oportunidade e colocam as cartinhas dentro dos sapatinhos na noite do dia 5. É bastante lógico, não? São Nicolau deve saber onde entregar a carta… e bem mais rápido!

Desejo a todos os meus leitores um dia cheio de bombons e chocolates!

December 03, 2005

Aqui não temos renas!

O dia 6 de dezembro está chegando! Para quem não sabe, neste dia comemora-se o dia de São Nicolau (Mikulás, ou Papai Noel) por aqui. Na noite do dia 5 as crianças colocam seus sapatinhos ou botinhas no beiral da janela e na manhã seguinte estes aparecem cheios de bombons, chocolates, nozes, avelãs e eventualmente um „virgács” se a criança não foi boa o suficiente, ou se suas notas escolares não foram as esperadas. Virgács é um punhado de varas finas de vidoeiro amarrados com um arame fino, que era usado no passado para bater. Hoje é só um símbolo da antiga palmatória, mas nenhuma criança gosta de encontrar um virgács dentro do seu sapatinho na manhã do dia 6, não!

Aqui na Hungria o Papai Noel não é um símbolo natalino como no Brasil (ou como o Santa Claus é nos países anglo-saxônicos), mas sim do Advento, da época na qual nos preparamos espiritualmente para a „chegada da luz”. Depois das Festas „a escuridão se vai” não só simbolicamente, mas na prática também por que os dias começam a ficar mais longos e as noites mais curtas. Não foi por acaso que a Igreja optou por colocar a comemoração do nascimento de Jesus nesta época do ano.

O bonachão de roupa „piros” (que originalmente não era desta cor, vide artigo „Aqui vai o gabarito…”) só faz parte dos costumes húngaros há uns 150 anos. Na época do pós-guerra o então regime comunista fez de tudo para que o Natal perdesse sua conotação religiosa e rebatizou a festa de Fenyő Ünnepe (Festa do Pinheiro) e o Mikulás de Télapó (Pai Inverno) sugerindo que ele fosse „um bom camarada”. Mas não deu certo. Embora muitos usem o termo Télapó ainda hoje, este já perdeu sua conotação „vörös” totalmente.

O pessoal de marketing trabalha fortemente a imagem do velhinho no início de dezembro, mas ela vai se esvaindo e perto da Véspera de Natal o Papai Noel não é mais visto nas propagandas de TV ou cartazes de rua. Mais uma curiosidade é que quando o Papai Noel aparece nos shoppings ele está sempre acompanhado de duas ou três „krampusz”, mocinhas vestidas de capeta com collants pretas e vermelhas e chifres na cabeça. O costume de assustar ou castigar as crianças más veio dos colonos saxões que habitavam o norte do país (hoje Eslováquia) e a Transilvânia (hoje Romênia). São Nicolau foi um santo muito querido naquelas regiões de culturas múltiplas. A origem da palavra krampusz é „Krumm-fuss” ou „Klumpf-fuss”, expressões alemãs que lembram as patas do diabo. Mas essas doces moças, embora diabólicas na sua aparência, são sorridentes e não afugentam as crianças… muito pelo contrário. Elas ajudam o Papai Noel na distribuição dos presentes e atraem os olhares dos papais enquanto os pequenos conversam com o velhinho.

Mas qual a origem do nosso personagem? Nascido na cidade de Patara, Ásia Menor por volta do ano 274 (algumas fontes mencionam 245, outras chegam até a 280), Nicolau foi filho de uma família rica. Perdeu os pais numa epidemia que dizimou a cidade e, após distribuir sua herança entre os pobres, foi morar com seu tio, que era bispo de Patara. Por influência do tio optou pela teologia e tornou-se padre.

Conta-se que durante o império de Deocleciano, Nicolau passou algum tempo na prisão, mas foi logo libertado. Um dia, voltando de uma peregrinação à Terra Santa parou em Myra, capital da Anatólia, onde teve uma enorme e grata surpresa. Diz a história que a Igreja em Myra era muito corrupta e que os clérigos brigavam muito entre si pelo poder. Após umas dessas graves discussões, um dos sacerdotes teve uma visão divina e sugeriu aos outros: „Que seja nosso bispo o próximo padre que entrar pelos portões da cidade!” Algumas horas depois Nicolau chegou e, tomado de surpresa, foi nomeado bispo, aos 24 anos de idade!

Nicolau (ou Miklós em húngaro, pois Mikulás é um apelido carinhoso de origem tcheca) dedicou sua vida inteira à educação e ajuda das crianças. Participou do Sínodo de Nicéia em 325, o primeiro Concílio Ecumênico do mundo. Morreu em Myra (hoje Demre) no dia 6 de dezembro de 350. Algumas fontes mencionam o ano de 326 mas em todo caso, seu bispado durou 52 anos. Podem fazer as contas, se quiserem.

Além de ser o símbolo da bondade, tornou-se patrono dos guardas noturnos e santo protetor dos marinheiros, dos pescadores, das crianças e – vejam só! – das virgens. Uma lenda conta que um pai malvado tinha três jovens filhas e que como não havia dinheiro em casa, ele tentou convencê-las a vender prazeres carnais, ajudando assim no orçamento familiar. Nicolau apareceu de surpresa entregando várias moedas de ouro às meninas pela janela (aqui o motivo de por que colocar os sapatinhos „na janela”), salvando-as deste triste fim.

Fico aqui pensando com os meus botões: será que as três „krampusz” que sempre o acompanham tem algo a ver com isso?

Ah, aqui não temos renas, viu?!

Hungria poderá proibir piadas de loiras


Vocês sabiam que a Hungria poderá aprovar uma lei que proíbe as piadas de loiras? Um grupo delas já deu entrada numa petição nesse sentido no parlamento húngaro, considerando as anedotas uma discriminação.

Falando aos jornalistas, a porta-voz do movimento, Zsuzsa Kovács, adiantou que „as loiras enfrentam discriminação no mercado de trabalho, no emprego, e mesmo nas ruas”. „Se é proibido discriminar os judeus e os negros, porque não dar a mesma proteção às loiras?”, acrescentou.

A petição foi entregue à Ministra da Igualdade, Kinga Göncz, apesar de não ter as cem mil assinaturas necessárias para que a questão seja discutida no Parlamento. No entanto, uma assessora da ministra prometeu às manifestantes que o governo fará tudo para pôr um fim à discriminação.

December 02, 2005

Mais um amigo bate à porta...






Meu amigo Árpád achou „intrigante” este blog interativo e enviou a seguinte simplificação das idéias de Goethe:




"Meu coração tem duas almas,
Que só fazem querer se apartar:
Uma, lasciva, só vive de amores,
A outra vai morrer de tanto pensar.”

Minha grande amiga "extra-terrestre" Anna Barbara Menezes também colocou sua azeitona nesta empada, como diria meu irmão. Segue a versão dela:

"Duas almas, ah, moram em meu seio
Uma quer da outra a separação
Uma se apega com ardente enleio
Aos prazeres do mundo e da paixão
E a outra, das brumas, procura esteio
No campo do saber e da razão."

Quem mais se habilita?

Em tempo: a belíssima estátua de bronze aí na foto chama-se „Duas Almas”, foi feita em 1986 pela artista plástica Maya Clemes e tem 3 m de altura. Ainda não descobri qual dos dois personagens está procurando esteio no campo do saber e da razão.

December 01, 2005

A maior inflação da História






Outro dia deparei-me com o interessante site intitulado „As reencarnações da moeda brasileira”

http://antonioluizcosta.sites.uol.com.br/moeda_brasil.htm

onde o autor afirma que „nominalmente, um real …. equivale a …. 2,75 quintilhões de réis dos velhos tempos, 2,75 quatrilhões de cruzeiros (ou mil-réis), 2,75 trilhões de contos (ou cruzeiros novos), 2,75 bilhões de cruzados, 2,75 milhões de cruzados novos ou 2.750 cruzeiros reais.”

Para os que se lembram das nossas inflações mensais de 40, 50 ou de até 60 por cento a situação econômica do país hoje em dia parece o Paraíso.

Mas qual terá sido a maior inflação da História? Será que foi a alemã no início dos anos 20 quando os preços dobravam de dois em dois dias e o índice de inflação chegou a 3.250.000% ao mês? Ou foi a da Grécia, durante a ocupação alemã (1941-44), quando os preços dobravam a cada 28 horas e o índice mensal foi de 8.550.000.000%?

Nenhuma das duas… Foi aqui mesmo, na Hungria, logo após o término da Segunda Guerra Mundial (1945-46). No último dia da moeda os preços dobravam a cada 15 horas, o equivalente a 4,19% × 10 elevado à 16ª potencia!

Vamos traduzir isso para que nós, leigos, entendamos: em agosto de 1945 um quilo de pão custava 6 pengő, em outubro passou a custar 27, no início de novembro 80, no finalzinho do mês 135, na primeira quinzena de dezembro 310, na segunda quinzena 550, passou para 700 no início de janeiro de 1946, no final do mês já estava em 7.000, no início de maio 8.000.000, no finalzinho do mês 360.000.000, e em junho chegou a 5.850.000.000 pengő.

E as cédulas? Foram sendo emitidas com uma velocidade incomum. No dia 5 de abril de 1945 foram emitidas as de 50 e 100 pengő. No dia 15 de julho já lançaram as de 1.000 e 10.000 pengő, no dia 16 de novembro as de 1.000.000 e 10.000.000 (dez milhões de pengő).

No dia 29 de abril de 1946 novas notas foram emitidas: 10.000.000.000 e 100.000.000.000 (dez mil milpengő e cem mil milpengő, ou 10 bilhões e 100 bilhões de pengő). 35 dias depois, no dia 3 de junho, sete novas cédulas (as últimas da série) tiveram que ser lançadas pois as anteriores não valiam mais nada: a primeira tinha 14 zeros depois do um e a última trazia 20 zeros!

O povo, bem-humorado como sempre, chamou a nota azul de „kis Bözsi” (Betinha) e a amarela de „nagy Bözsi” (Betona) pois as cédulas continham o retrato de uma camponesa.

Finalmente, no primeiro dia de agosto de 1946 introduziram o forint, que persiste até hoje: uma moeda de um forint (1 Ft) podia ser comprada a 400.000.000.000.000.000.000.000.000.000 pengő (podem contar, são 29 zeros). Os preços, de repente, ficaram bem mais „acessíveis”: um quilo de pão passou a custar 0,96 Ft, 1 quilo de batata 0,43 Ft e o salário mínimo ficou por volta de 130 Ft.

Hoje em dia, 60 anos depois, com 220 Ft você compra um dólar americano. Parece que a moeda deu certo, assim como o nosso real.

Cruz torta

Ultimamente ando me esquecendo de várias coisas, uma delas é de entrar no meu próprio blog... parece que estou ficando senil. Se bem que a senilidade tem uma vantagem: poderei esconder os meus próprios ovinhos de Páscoa no jardim.

Uma de minhas leitoras mais assíduas (a que ganhou o jantar "piros") perguntou por quê a cruz da Santa Coroa húngara é torta? Como este blog trata de assuntos de suma importância para a Humanidade, fiz uma pequena pesquisa. Como sempre, existem várias explicações para isso.

Alguns cientistas dizem, que ela já foi feita assim de propósito e que ela indica o ângulo exato da inclinação da Terra. Joalheiros examinaram a base da cruz e não há sinal que comprove que ela tenha sido entortada à força. Isso responderia o porquê da cruz nunca ter sido "consertada"... ou não?

Uma outra versão relata, que na metade do Século XV um Habsburgo chamado Albert reinou durante dois anos aqui na Hungria e morreu. Sua esposa Erzsébet (Elisabeth) quis que seu filho, ainda nem nascido, fosse o próximo rei e numa noite roubou a coroa do Castelo de Visegrád. Sua mais leal camareira ajudou-a e documentou o ocorrido em detalhes num diário. Embrulharam a coroa num travesseiro enorme e como o Danúbio estava congelado, quiseram atravessá-lo num trenó para chegar a Komárom, cidade não muito longe dali. Mas o gelo cedeu e quase tudo se perdeu nas águas do rio. Por sorte a coroa foi salva mas na confusão levou alguns sérios golpes. O diário da camareira não menciona o fato da cruz ter entortado, mas é possível que tenha.

Um desenho de 1620 mostra a coroa ainda com a cruz em pé, mas isso não comprova nada. Nos duzentos anos que se seguiram a coroa viajou centenas ou talvez milhares de quilômetros pois a cada nova batalha ou revolta o símbolo do poder precisava ser escondido e bem guardado. A coroa visitou Pozsony inúmeras vezes (hoje Bratislava), Ecsed, Trencsén, Linz, Passau, Viena, Komárom e mais alguns castelos espalhados pelo reino. As condições das estradas de terra e das carroças eram bastante precárias (se comparadas aos automóveis com amortecedores de hoje em dia) portanto vocês podem imaginar pelo que passou esta bela jóia durante a sua história.

Pesquisas recentes demonstraram, que no dia 14 de fevereiro de 1638 a Santa Coroa sofreu um novo acidente. Ela era guardada dentro de uma capa de cobre, que por sua vez ficava num pequeno baú. Naquele dia houve a coroação da rainha Maria Anna, primeira esposa de Ferdinando II e o camareiro real foi incumbido à última hora de trazer a coroa do rei para a festa. Como ele estava com pressa e havia perdido a chave do baú, este foi aberto de forma violenta, possivelmente entortando a cruz. Mas novamente isto é só especulação, pois ilustrações posteriores, de 1741 e 1790 por exemplo, mostram a cruz ainda em pé.

Em 25 de maio de 1784 o camareiro real do rei József II relata o seguinte: „No dia de hoje, vinda de Pozsony, recebi a Santa Coroa do Reino, que está com a cruz entortada.” Parece que essa é a primeira vez que mencionaram o fato por escrito. Quase todas as ilustrações futuras já mostram a coroa com a cruz torta.

November 27, 2005

O que você daria? (Parte 1)

Falta menos de um mês até o Natal e isso me faz lembrar os 3 Reis Magos e os seus presentes: ouro, incenso e mirra. Se eles estivessem vivos e a cena bíblica fosse hoje em dia, na sua opinião quais seriam os três presentes „atualizados”? Aguardo seus comentários com muito interesse…

Desarmamento (uma visão histórica)

Maoris x Morioris (por György László Gyuricza)

Um bom exemplo das “vantagens” de se ter uma índole pacífica e de andar desarmado, é o seguinte fato histórico, fartamente documentado (Guns, Germs and Steel, Jared Diamond, Editora Vintage, 1998) ocorrido na região do Oceano Pacífico.

O povo moriori, habitante das Ilhas Chatham, 500 milhas a leste da Nova Zelândia, tinha uma tradição de séculos de independência, até dezembro de 1835.

Em 19 de novembro daquele ano, um navio carregando 500 maoris armados com lanças, machados e cacetetes, desembarcou na ilha, seguido em 5 de dezembro de uma nova leva de mais 400 maoris.

Assim que desembarcaram, os maoris montaram um acampamento protegido na praia, prevendo eventual fuga pelo mar, caso fossem rechaçados pelos morioris.

Uma vez em razoável segurança, enviaram grupos de maoris fortemente armados, aos assentamentos dos morioris, anunciando que estavam tomando posse da ilha e que doravante os morioris seriam seus escravos e teriam que obedecer em tudo que lhes fosse mandado, com a ameaça de matar todos aqueles que se opusessem.

Uma resistência organizada pelos morioris certamente teria vencido os maoris, que estavam em desvantagem numérica de dois para um. No entanto, os morioris tinham uma tradição de resolver suas disputas pacificamente. Assim, eles se reuniram em conselho, e decidiram não revidar e sim oferecer paz e amizade. Entregariam toda sua parca riqueza e, se necessário fosse, dividiriam de bom grado seus recursos com os novos amigos. A ilha era grande o suficiente, para acomodar de boa vontade todas as pessoas.

Assim que os moriori anunciaram sua oferta, os maoris exultaram de alegria. Pediram que o conselho enviasse os mais fortes morioris para o acampamento na praia, onde seriam realizados jogos de amizade e selada a paz entre os dois povos.

Assim que os morioris chegaram, desarmados obviamente, foram atacados em massa. No curso de algumas poucas horas, os maoris mataram centenas deles, e cozinharam e comeram a maioria dos corpos.

Vencida qualquer possível resistência, escravizaram os demais. No decorrer dos próximos anos praticamente toda a população adulta foi simplesmente devorada. As crianças reunidas em chiqueiros de engorda, foram consumidas aos poucos, como petisco. Somente as moças sobreviveram: tiveram o destino óbvio de servir de mulher e parir filhos para os novos donos da ilha.

Um sobrevivente moriori assim relatou o ocorrido: “Os maoris começaram a nos matar como ovelhas. Nós estávamos aterrorizados, refugiávamo-nos no mato, escondíamo-nos em buracos no subsolo e em qualquer lugar para escapar dos nossos inimigos. Mas nossos estratagemas não foram de grande proveito: éramos descobertos e mortos – homens, mulheres e crianças, indiscriminadamente”.

Um conquistador maori deu a seguinte explicação: “Não fizemos nada demais. Só tomamos posse da ilha. Capturamos toda a população. Nenhum escapou. Alguns tentaram se esconder, estes nós matamos, os outros também matamos, mas e daí? Agimos de acordo com nossos costumes – e eles eram mais fracos do que nós”.

É isso, amigos. Vamos entregar nossas armas e jamais reagir quando somos assaltados. A melhor política, segundo nossas “autoridades”, é sempre obedecer ao agressor. Sem dúvida eles vão exultar de alegria.

Antes que paire alguma dúvida sobre minha posição: sou absolutamente a favor do desarmamento dos bandidos. Assim que todos eles estiverem desarmados, aceito até falar sobre o que fazer com minha arma de fogo.

Quanto ao tratamento a ser dado aos bandidos, acho que dá para resolver o problema, mesmo sem pena de morte. Sou a favor de castrar todos eles, começando pelos meninos infratores da Febem. Acredito que a esmagadora maioria deles perderia a agressividade e deixaria de ser uma ameaça à população. E quais seriam as conseqüências se, de setenta milhões de brasileiros homens, duzentos, trezentos mil ficassem estéreis? Você vê alguma desvantagem? ... a não ser a de contrariar os defensores dos direitos humanos? Pena não poder enviá-los às Ilhas Chatham para negociar com os maoris.

November 25, 2005

Nosso "herói de dois mundos" é…

Giuseppe Garibaldi! Pesquisando a internet, os interessados poderão encontrar páginas e mais páginas sobre esse herói „multinacional”. Iluminarei portanto somente alguns pontos que a maioria talvez não conheça:

Nascido em 1807 em Nizza (hoje Nice, na França, então parte do reino da Sardenha-Piemonte), aos 26 anos já era capitão de navio. Um ano depois foi condenado à morte por motivos políticos e teve que fugir para a América do Sul.

No Brasil ingressou na Ordem Maçônica e teve participação destacada na Guerra dos Farrapos. Casou-se com a catarinense Ana Maria de Jesus Duarte Ribeiro, que deixou o marido sapateiro para segui-lo. Organizou a Legião Italiana em Montevidéu em 1843, de onde saíram os primeiros „Camisas Vermelhas” (em húngaro, Vörösingesek). A Legião foi essencial para evitar a tomada de Montevidéu pelos argentinos. Mesmo assim, na Argentina ele também é muito querido.

Em 1848 retornou à Europa (que fervia com revoltas por toda a parte) para lutar pela unificação italiana. Garibaldi conseguiu ocupar Roma com suas tropas, mas perdeu a guerra contra os franceses e os napolitanos. Na fuga de Roma sua esposa Anita Garibaldi morreu.

Seu segundo exílio iniciou-se no Marrocos, depois foi para os Estados Unidos e de lá para o Peru, onde exerceu outra vez seu ofício de capitão de navio mercante. Fez bons investimentos. Em 1854 voltou à Europa. Encontrou-se com o líder revolucionário húngaro Lajos Kossuth em Londres, início de uma longa amizade.

Um ano depois arrumou dinheiro repentinamente (provavelmente fruto dos investimentos mencionados há pouco) e comprou a Ilha de Caprera, perto da Sardenha.

Em 1860, sabendo que as coisas estavam fervilhando na Sicília, foi para lá com 1064 homens, entre os quais haviam 2 húngaros: István Türr e Lajos Tüköry. Após as primeiras vitórias seu exército cresceu em número a ponto de ocuparem Palermo (onde Tüköry morreu em batalha).

No final do mesmo ano ocupou Nápoles e propos armistício ao Rei Vitor Emanuel II, entregando-lhe o poder. Recusou honrarias, um castelo, o título de nobreza e a pensão vitalícia oferecidos pelo monarca. Retornou à sua ilha com um saco de farinha, um queijo, um pão, uma lata de arenques e quatro moedas de ouro.

Sua última participação como líder militar foi ao lado dos franceses contra a Prússia em 1870. Morreu em 1882, aos 74 anos, na sua casinha em Caprera, onde está enterrado.

Na Hungria ele também é um herói nacional. Quando Lajos Kossuth faleceu em Torino em 1894, o governo italiano providenciou um vagão especial para o transporte do caixão. A cada estação que o trem parava veteranos „camisas vermelhas” das tropas de Garibaldi aguardavam Kossuth em posição de sentido e saudavam-no com suas bandeiras rasgadas em batalha.

Pelo menos uma canção folclórica húngara fala do „chapéu de Garibaldi” e há um doce chamado „Fatia de Garibaldi”. Nosso herói nunca pisou em solo húngaro. Quando chamaram-no para participar das lutas contra os austríacos, ele respondeu: „eu costumo ser convidado pelo som de um canhão”.

November 24, 2005

Qual o tamanho do seu pé?

Você já se confundiu, no meio de uma loja européia ou americana, ao encontrar quatro numerações diferentes gravadas na sola de um par de sapatos que gostaria de comprar? Milhares de pessoas, há décadas, gostariam de saber por quê nao existe uma tabela internacional e uniforme para medir esse acessório insubstituível. Em alguns países usam-se centímetros, noutros polegadas, os sistemas de conversão são confusos, enquanto nossa única preocupação é comprar um calçado confortável e durável para os nossos pés. Pior ainda se o nosso pé tiver uma medida intermediária. As estatísticas comprovam que, levando em conta o comprimento e a largura, existem aproximadamente 100 medidas diferentes de pés adultos. Os fabricantes não sabem e não querem solucionar esse problema, pois a confecção de números intermediários acarretaria custos adicionais de fabricação. Conseqüentemente, só a metade da população usa sapatos que sejam da medida exata do seu pé.

Pequenos industriários, comerciantes e estudiosos pediram ao Rei João I da Inglaterra (o famigerado João Sem Terra) na Magna Carta de 1215 que o governante uniformizasse os pesos e medidas do Império. Naquela época (não só hoje em dia) os governos trabalhavam de forma extremamente lenta, assim nada aconteceu até 1304, quando finalmente montaram um comitê para esse fim. Aparentemente porém o então Rei Eduardo I tinha preocupações maiores do que essa. Passaram-se mais 20 anos (!) e finalmente, em 1324, seu filho Eduardo II teve a brilhante idéia de medir o comprimento dos calçados com grãos de cevada. Três grãos colocados lado a lado formaram um inch (polegada), doze inch viraram um foot (pé) e 36 grãos de cevada tornaram-se o „padrão internacional” (pelo menos nos países de língua inglesa) para o comprimento de um pé. O comprimento de um grão de cevada é de aproximadamente 8,5 mm. Convenhamos, não é um método prático para se medir no século 21, mas o sistema persistiu.

Os franceses, alguns séculos depois, decidiram que eram mais inteligentes que os ingleses e que iriam inventar um método muito mais "lógico" que o deles. Criaram pois o "ponto de Paris", que mede 2/3 cm (6,666 mm), e padronizaram o sistema europeu de calçados, que estabelece que se dividirmos o comprimento da nossa forma (não do pé!) em milímetros por esse número mágico teremos a numeração do nosso sapato. Os fabricantes brasileiros, entretanto, decidiram que eles dividiriam o comprimento do pé, e não da forma, pelo número diabólico (6,666): é por isso que há uma diferença de dois números entre os dois sistemas de medição. Por exemplo, se o seu pé mede 26 cm então você é um „perfeito 39” no Brasil, mas aqui na Europa você compraria um calçado 41. Nao é uma loucura? Pois é mesmo!

Só para completar, eu gostaria de mencionar que, após inúmeras pesquisas, não consegui descobrir a lógica que regeu o nascimento dos "pontos de Paris". Perguntei a vários sapateiros, comerciantes e até proprietários de fábricas de sapatos, mas ninguém conseguiu me dar uma explicação concreta. Se alguém souber mais a respeito, sou todo ouvidos…

Seu sangue é magyar?

A Associação Húngara está em campanha para achar o maior número possível de descendentes de húngaros no Brasil.

Em 2006 a associação realizará grandes eventos para comemorar o 50º Baile Húngaro, o 50º aniversário da Revolução Húngara de 1956, e o 80º da entidade.

Caso seu sangue seja piros-fehér-zöld, por favor, envie esta informação para seus parentes e peça que se cadastrem. Nenhum uso comercial ou político será feito com a lista de e-mails, que permanecerá sob a tutela da Associação Húngara.

As informações podem ser enviadas diretamente pelo site:

http://www.ahungara.org.br/

November 22, 2005

Lógica da Argumentação

Aqui vai um exemplo de Lógica da Argumentação:

A negação de "o gato mia e o rato chia" é:

a) o gato não mia e o rato não chia
b) o gato mia ou o rato chia
c) o gato não mia ou o rato não chia
d) o gato e o rato não chiam nem miam
e) o gato chia e o rato mia

Qual será a resposta correta?

Quem é nosso herói?


Há um personagem de destaque na História do Brasil que participou também da História da Hungria, tanto é que uma antiga canção militar exalta o seu nome. Ele foi honrado com estátuas nos dois países. Aqui em Budapeste seu busto pode ser visto no Múzeumkert. Se eu contar onde está sua estátua no Brasil, fica fácil...
Nasceu em Nice (França) e disse: „Cada vez que sou chamado a salvar pessoas, jamais tenho dúvidas em arriscar a minha própria vida”.
Quem será nosso herói?

Duas almas



Como este blog é intitulado „Gábor e seus amigos”, convido todos vocês a mandarem
textos interessantes, como o que segue:

(por György László Gyuricza)



"Zwei Seelen wohnen, ach! in meiner Brust,
Die eine will sich von der andern trennen;
Die eine hält, in derber Liebeslust,
Sich an die Welt mit klammernden Organen;
Die andere hebt gewaltsam sich vom Dust
Zu den Gefilden hoher Ahnen." ( Goethe )

Lembrei-me desses versos de Goethe em Faust (vol. 1) pois estou escrevendo um conto relacionado com o assunto e queria ilustrá-lo com a citação do filósofo alemão. Fui até a estante, peguei o original e o transcrevi para o papel, exatamente como vocês estão vendo aí em cima.
Considerando que a grande maioria dos leitores não fala alemão ou fala sem a profundidade suficiente para compreender versos escritos há mais de duzentos anos num alemão antigo e pomposo, peguei da caneta e, tentando ser o mais fiel possível às palavras do autor, fiz a seguinte tradução:

Duas almas moram, ah, em meu peito
Uma quer, da outra, separar-se;
Uma, em rude volúpia carnal,
apega-se com unhas e dentes aos prazeres mundanos;
a outra ergue-se violentamente das brumas
para a região do elevado saber.

Achei que ficou muito boa. Alguns dias depois, matutando sobre o assunto, concluí que estava sendo terrivelmente pretensioso em achar que com o auxílio da memória (estudei estes versos na escola há mais de quarenta anos) e de um dicionário moderno conseguira desvendar todas as sutilezas destas estrofes do poeta maior da Alemanha.
Resolvi pesquisar o assunto mais a fundo e com a inestimável ajuda de Frau Jutta do Goethe Institut/RJ e de alguns sites da Internet, obtive diversas traduções muito mais abalizadas do que a minha.
Todavia, ao invés de o assunto ter sido esclarecido definitivamente, mais dúvidas surgiram e agora, sinceramente, não sei mais por onde prosseguir.

Tenho certeza que quem melhor traduziu as intenções do autor foi meu irmão Gábor, em sua versão do Fausto Nordestino:

Duas almas, óxente, amancebaram-se no meu peito,
uma tá arretada com a outra, mode não querer mais ficar junto, não
uma só pensa em se agarrar e transar o dia inteiro
a outra em se arribar da poeira - e ficar matutando besteira.

Mas não é esse o ponto fulcral. Pelas duas versões acima, acho que não resta dúvida quanto ao conteúdo do que Goethe quis dizer. A questão que se coloca, é como traduzir para o português do Brasil, sem invencionices e falsa erudição, algumas poucas palavras, aparentemente corriqueiras da língua alemã.
Se você quer me ajudar na tradução definitiva, não precisa saber falar alemão, basta conferir o que eu garimpei até agora e me enviar a sua versão.

Zwei Seelen wohnen, ach! in meiner Brust,
Die eine will sich von der andern trennen;

Duas almas moram, ah, em meu peito,
uma, da outra, deseja separar-se;
Duas almas tenho em meu coração,
uma da outra a querer se separar:
Vivem-me duas almas, ah! no meu seio,
querem trilhar em duas opostas sendas;
Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,
e aí lutam por um indivisível reino;
Duas almas habitam no meu peito,
uma da outra separar-se anseia:
Duas almas convivem em meu peito,
uma tenta se dividir da outra;
Neste meu peito, guardo duas almas:
uma a querer separar-se da outra.
Duas almas ah! moram dentro de mim,
e cada uma delas quer se separar da outra
No meu corpo há duas almas em competição,
anseia cada qual da outra se apartar.

Die eine hält, in derber Liebeslust,
Sich an die Welt mit klammernden Organen;

Uma rude me arrasta aos prazeres da terra
e se apega a este mundo com anseios redobrados;
Uma, ardente de amor, se prende ao mundo,
por meio dos órgãos corporais;
Uma no mais vivo prazer de viver,
se prende ao mundo com órgãos tenazes;
A primeira, num prazer carnal primitivo,
se apega ao mundo com seus orgãos aderentes;
Uma com órgãos materiais
se aferra amorosa e ardente ao mundo físico;
Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada;
às íntimas entranhas ainda está ligada.
Uma se agarra, com sensual enleio e órgãos de ferro,
ao mundo e à matéria:
Uma apega-se, em paixão rasteira,
com todos os seus orgãos às matérias;
Uma, em rude volúpia sensual,
se agarra ao mundo com toda a avidez dos sentidos.

Die andere hebt gewaltsam sich vom Dust
Zu den Gefilden hoher Ahnen.

A outra ergue-se violentamente das trevas
para os campos do alto saber
A outra ergue-se violentamente das brumas
para a região dos altos pensamentos
A outra quer erguer-se da poeira
E subir ao reino da sua origem etérea.
Acima das névoas, a outro aspira, de certeza,
com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza.
Outra quer ensofrida remontar-se
de sua excelsa origem às alturas
A segunda se eleva energicamente da poeira
para os campos de seus nobres antepassados.
A outra se ergue, com força, do pó
aos campos dos sentimentos elevados
Outra ascende nos ares; nos espaços erra,
aspira à vida eterna e a seus antepassados
Um movimento sobrenatural arrasta a outra para longe das trevas,
rumo à alta morada de nossos avós!

Muito bem… quem se habilita a ajudar meu irmão György?